Cotações da semana
| Commodity / Indicador | Fonte | Preço (18/09/2026) | Variação |
|---|---|---|---|
| Soja — Paraná | Cepea/Esalq | R$ 155,18/sc (60kg) | +0,15% no dia |
| Soja — Paranaguá (porto) | Cepea/Esalq/B3 | R$ 161,89/sc (60kg) | -0,08% no dia |
| Milho | Cepea/Esalq | R$ 69,29/sc (60kg) | +0,06% no dia |
| Café Arábica | Cepea/Esalq | R$ 1.546,58/sc (60kg) | +0,30% no dia |
| Boi Gordo | Cepea/Esalq/B3 (SP) | R$ 352,90/@ | +0,10% no dia |
| Dólar comercial (venda) | Mercado / Infomoney | R$ 5,1451 | +0,39% na semana |
| Taxa Selic | Copom/BCB (16/09) | 13,75% a.a. | -0,25 p.p. |
| Fed Funds Rate | Federal Reserve (16/09) | 3,75%–4,00% a.a. | +0,25 p.p. |
Fontes: Cepea/Esalq, Infomoney, Banco Central do Brasil (BCB), Federal Reserve. Indicadores à vista, fechamento de 18/09/2026, salvo indicação em contrário.
1 · Destaques da semana
1.1 Copom corta a Selic para 13,75% a.a., mas mantém tom cauteloso
Em reunião realizada em 16 de setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu por unanimidade a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,00% para 13,75% ao ano. A justificativa oficial apontou "moderação gradual da atividade econômica", citando o recuo de 0,22% do IBC-Br em julho e a queda de 0,8% nas vendas do varejo no mesmo mês. Ao mesmo tempo, o comunicado reconheceu que a inflação "permanece acima da meta" e que "as expectativas de inflação também continuam desancoradas", com o IPCA projetado em 5,2% para 2026 — bem acima do centro da meta de 3%.
O corte confirma o início de um ciclo de afrouxamento monetário, mas o ritmo comedido (0,25 p.p.) e a linguagem de cautela sinalizam que o Banco Central não pretende acelerar novos cortes enquanto a inflação estiver desancorada. Para o produtor rural, o efeito prático de curto prazo é marginal: 13,75% ao ano ainda é um patamar de crédito extremamente oneroso, e a manutenção do discurso de cautela reduz a probabilidade de uma queda mais rápida no custo do capital de giro e do crédito de custeio no Plano Safra 2026/27. O câmbio tende a ser o canal mais sensível: cortes da Selic estreitam o diferencial de juros com os EUA, pressionando o real.
1.2 Fed eleva juros para 3,75%–4,00%, primeira alta desde 2023
No mesmo dia 16 de setembro, o Federal Reserve elevou sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4,00% — a primeira alta de juros americana desde 2023. A decisão foi unânime sob a liderança do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, que declarou que a inflação americana está "alta demais" e por "tempo demais". Dezesseis dos dezoito membros do comitê sinalizaram a expectativa de pelo menos mais uma alta de 0,25 p.p. até o fim do ano, projetando a taxa entre 4,00% e 4,25% ao final de 2026. O Fed revisou a projeção de inflação para 3,7% e a de crescimento do PIB para 2,3%; a gasolina nos EUA está 33% mais cara que há um ano e a hipoteca de 30 anos se aproxima de 7%.
A combinação de Fed subindo juros e Copom cortando é uma divergência de política monetária pouco usual e relevante para o câmbio. Em teoria, o estreitamento do diferencial de juros Brasil-EUA reduz o carry trade a favor do real e pressiona o dólar para cima frente às moedas emergentes — inclusive o real. Isso tende a ser positivo para a competitividade das exportações agrícolas brasileiras (grãos e carne ficam mais baratos em dólar para o comprador externo, e o produtor recebe mais reais por saca ou arroba exportada), mas também eleva o custo em reais de insumos importados (fertilizantes, defensivos, diesel) e da dívida em dólar de tradings e cooperativas.
1.3 Conab confirma safra de grãos recorde de 361,7 milhões de toneladas
Em 15 de setembro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou a estimativa da safra de grãos 2025/26 para 361,7 milhões de toneladas, alta de 2,6% sobre 2024/25 e de 0,3% em relação ao levantamento de agosto. A soja atingiu 180,4 milhões de toneladas (+5,2%), a maior produção da série histórica da Conab; o milho somou 144 milhões de toneladas (+2,0%); já o trigo recuou 27,1%, para 5,74 milhões de toneladas — a maior retração entre as culturas. A área plantada cresceu 1,7% na comparação anual, para 83,5 milhões de hectares.
Uma oferta recorde de soja e milho é, por definição, um fator estrutural baixista para os preços domésticos no curto e médio prazo, pressionando a margem do produtor justamente no momento em que o custo do crédito (Selic a 13,75%) permanece elevado — um aperto de "tesoura" entre receita mais fraca e custo de capital mais caro. Por outro lado, o volume recorde sustenta o processamento industrial (esmagamento de soja em ritmo recorde, como detalhado na seção de soja) e amplia a capacidade de exportação, contribuindo para o superávit comercial.
1.4 Balança comercial: agro segue como motor do superávit
Dados divulgados em 14 de setembro mostraram superávit comercial de US$ 1,548 bilhão na segunda semana de setembro, com exportações de US$ 7,034 bilhões e importações de US$ 5,486 bilhões. As exportações do agronegócio somaram US$ 2,831 bilhões na semana, alta de 16,5% ante o mesmo período de 2025, enquanto o total das exportações brasileiras cresceu 28,5% no comparativo anual. O saldo acumulado no mês (até a segunda semana) chegou a US$ 3,356 bilhões, e o superávit acumulado no ano alcançou US$ 58,674 bilhões — 36,9% acima do mesmo intervalo de 2025.
O fluxo comercial positivo e crescente do agronegócio é o principal contrapeso doméstico à saída de capital financeiro (ver seção de câmbio) e ajuda a explicar por que o real não se desvalorizou de forma mais acentuada mesmo com o Fed subindo juros. Do ponto de vista do produtor, o resultado reforça a leitura de que a demanda externa por commodities brasileiras segue aquecida, sustentando o valor das exportações mesmo em um cenário de preços internacionais pressionados por oferta abundante.
1.5 Tarifas Brasil-EUA: próxima rodada de negociação em 30/09–01/10
As equipes técnicas do Brasil e dos Estados Unidos seguem sem acordo sobre o tarifaço imposto pelo governo Trump. Segundo informações de 15 de setembro, a próxima rodada presencial de negociações ocorrerá entre 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, à margem da reunião de ministros de Indústria e Comércio do G20 — com o ministro Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e o chanceler Mauro Vieira representando o Brasil diante do representante comercial dos EUA, Jamieson Greer. O ministro brasileiro afirmou que "ainda não há um rascunho de acordo" e reconheceu "a dificuldade das negociações". Carne bovina, café, petróleo, terras raras e peças aeroespaciais já constam da lista de produtos isentos das tarifas adicionais; o objetivo brasileiro na próxima rodada é ampliar essa lista.
Para o produtor de café e de boi gordo, a manutenção da isenção tarifária é a informação mais relevante da semana no front comercial: significa que, ao menos por ora, o principal risco de perda de competitividade nos EUA está afastado para essas duas cadeias. Soja e milho brasileiros, cuja exposição ao mercado americano é historicamente pequena (o grosso das exportações vai para a China), são menos sensíveis a esse capítulo específico da disputa comercial, mas seguem expostos indiretamente à forma como a disputa EUA-China por safras agrícolas se resolve.
2 · Soja
O que aconteceu
O indicador Cepea/Esalq da soja no Paraná fechou em 18 de setembro a R$ 155,18 por saca de 60 kg (+0,15% no dia), enquanto o indicador de Paranaguá (porto) marcou R$ 161,89/sc (-0,08%). No plano da oferta, dois números estruturais dominaram a semana: a Conab confirmou a safra 2025/26 do Brasil em 180,4 milhões de toneladas (+5,2% sobre 2024/25, recorde histórico), e a consultoria StoneX elevou sua primeira estimativa para a safra 2026/27 a 183,5 milhões de toneladas (+0,2% em relação à leitura anterior da própria consultoria). Já nos Estados Unidos, o relatório WASDE do USDA, divulgado em 11 de setembro, elevou a produção americana 2026/27 para 4,535 bilhões de bushels (123,43 milhões de toneladas), ante 4,519 bilhões de bushels (123 milhões de toneladas) na leitura anterior — alta de 0,43 milhão de toneladas —, mantendo a estimativa para o Brasil praticamente estável, em torno de 186 milhões de toneladas para 2026/27.
No front comercial, a Abiove revisou, em 18 de setembro, a previsão de exportação de soja do Brasil para 115 milhões de toneladas em 2026, uma redução de 400 mil toneladas frente à estimativa anterior — a primeira queda mensal desde março de 2026, ainda que o número represente alta de 6,3% sobre 2025. A associação atribuiu o ajuste à intensificação das compras chinesas de soja norte-americana nas últimas semanas, movimento que antecedeu a visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington. Em contrapartida, a Abiove elevou a previsão de processamento (esmagamento) de soja no Brasil para um recorde de 63,5 milhões de toneladas, e a de exportação de óleo de soja para 1,8 milhão de toneladas (+5,9%). No campo, chuvas regulares aceleraram o início do plantio da safra 2026/27 em meados de setembro, favorecendo a semeadura em praticamente todas as regiões produtoras.
Por que aconteceu
O comportamento lateral dos preços domésticos reflete o equilíbrio entre dois vetores opostos: de um lado, uma oferta recorde tanto da safra que se encerra (180,4 Mt) quanto da que se inicia (183–186 Mt projetadas), que naturalmente limita o espaço para altas; de outro, a demanda firme da indústria doméstica de esmagamento, que opera em ritmo recorde e sustenta o preço pago ao produtor mesmo com o grão mais disponível. No mercado externo, a decisão da China de intensificar compras nos Estados Unidos é um movimento tático — em parte diplomático, ligado à visita de Xi Jinping — que reduz o ritmo de vendas externas do Brasil justamente no início da comercialização da nova safra, sem, porém, reverter a tendência estrutural de crescimento das exportações brasileiras no ano.
Consequências no mercado
No curto prazo, a combinação de safra recorde com exportação levemente mais lenta tende a manter os prêmios de exportação em Paranaguá comprimidos e os preços domésticos sob viés lateral a levemente baixista, especialmente enquanto persistir a preferência chinesa por origem americana. A margem do produtor brasileiro, contudo, é parcialmente protegida pelo aumento do processamento doméstico — a indústria de esmagamento, operando em recorde, atua como comprador adicional que absorve parte do excedente de oferta, sustentando o preço da soja em grão mesmo com a exportação mais fraca no curtíssimo prazo.
Impacto B2B
Tradings enfrentam prêmios de exportação comprimidos em Paranaguá diante da preferência chinesa por origem americana, mas a indústria de esmagamento doméstica — operando em ritmo recorde de 63,5 milhões de toneladas projetadas — absorve parte do excedente de grão e sustenta a demanda por matéria-prima, amortecendo o efeito da exportação mais lenta sobre o produtor.
Impacto B2C
Sem repasse direto identificado ao consumidor final nesta semana.
O que observar
O resultado da negociação comercial EUA-China será determinante para a safra 2026/27: uma normalização duradoura das compras chinesas nos Estados Unidos reduziria a participação relativa do Brasil no mercado chinês, ainda que o volume recorde da produção brasileira deva sustentar as exportações totais em patamar elevado. O câmbio mais depreciado, discutido na seção macro, tende a compensar parcialmente a pressão de oferta.
3 · Milho
O que aconteceu
O indicador Cepea/Esalq do milho fechou em 18 de setembro a R$ 69,29 por saca de 60 kg, alta marginal de 0,06% no dia. A Conab confirmou a safra brasileira 2025/26 em 144 milhões de toneladas, crescimento de 2,0% sobre o ciclo anterior. Já nos Estados Unidos, o relatório WASDE de setembro do USDA trouxe um corte relevante na produção: a estimativa caiu para 15,8 bilhões de bushels (401,32 milhões de toneladas), ante 16,013 bilhões de bushels (406,73 milhões de toneladas) no mês anterior — uma redução de 5,41 milhões de toneladas, atribuída à produtividade revisada para 178,5 bushels/acre. Como consequência, os estoques finais americanos recuaram para 1,567 bilhão de bushels (39,80 milhões de toneladas), ante 1,653 bilhão de bushels na leitura anterior, e os estoques mundiais finais caíram para 272,1 milhões de toneladas, de 274,7 milhões de toneladas.
Por que aconteceu
O preço doméstico do milho segue ancorado, acima de tudo, pela fartura de oferta interna: a safra recorde de 144 milhões de toneladas, somada aos estoques de passagem elevados, mantém o mercado brasileiro folgado, num contraste direto com o cenário americano, onde o corte de produtividade do USDA reduziu tanto os estoques domésticos quanto os globais. Esse corte no WASDE é, isoladamente, um fator de sustentação para os preços internacionais em dólar — menor produção e menor estoque de passagem nos EUA tendem a apoiar Chicago —, mas seu efeito de repasse ao mercado físico brasileiro tem sido limitado pela disponibilidade doméstica recorde.
Consequências no mercado
No curto prazo, o milho brasileiro deve continuar operando com viés mais dependente da dinâmica de câmbio e do ritmo de embarques do que da referência de Chicago, dado o excedente de oferta interna. Para o produtor, a boa notícia é que os estoques mundiais mais apertados (272,1 Mt) sustentam o piso de preços internacionais, o que preserva a paridade de exportação como alternativa de escoamento caso a demanda doméstica (ração animal, etanol de milho) desacelere.
Impacto B2B
Processadoras domésticas (etanol, ração) seguem se beneficiando de matéria-prima abundante e preços comprimidos, enquanto o corte de estoques nos EUA sustenta um piso para os preços internacionais que preserva a paridade de exportação como alternativa de escoamento caso a demanda interna desacelere.
Impacto B2C
Sem efeito direto identificado nesta semana.
O que observar
O avanço do plantio da safra de verão 2026/27 e, mais adiante, a decisão de área para a segunda safra (safrinha) — historicamente responsável por cerca de 80% da produção nacional —, que definirá se a folga de oferta se mantém ou se estreita ao longo de 2027.
4 · Café
O que aconteceu
O indicador Cepea/Esalq do café arábica fechou em 18 de setembro a R$ 1.546,58 por saca de 60 kg, com alta de 0,30% no dia. No plano internacional, contudo, a semana consolidada até 8 de setembro trouxe uma queda expressiva: o café arábica negociado na ICE (Nova York) recuou 5,9% no período, movimento que acompanhou perdas generalizadas em commodities agrícolas — o cacau caiu 10,8% em Londres, o trigo caiu 4,5% em Chicago, e o índice geral de commodities agrícolas (S&P GSCI Agriculture) recuou 3,0% na semana. As causas apontadas para o recuo do café foram o aumento dos estoques certificados e a mudança nas expectativas de demanda, além de chuvas recentes e previstas no Brasil que melhoraram as perspectivas para a safra 2027/28.
Por que aconteceu
O movimento de queda no mercado externo reflete uma recomposição de estoques certificados na bolsa de Nova York após um período de escassez, somada à melhora do panorama climático para a próxima safra brasileira — as chuvas que favorecem a floração e o pegamento dos grãos reduzem a percepção de risco de quebra futura, o que tende a aliviar prêmios de risco embutidos nos contratos futuros mais longos. A resiliência do indicador Cepea em reais (com leve alta no dia) frente à queda em dólar na ICE é explicada, em parte, pelo comportamento do câmbio: um dólar mais firme (ou estável) compensa parcialmente, para o produtor brasileiro, a queda da cotação internacional em moeda americana.
Consequências no mercado
No curto prazo, a combinação de estoques maiores em Nova York com perspectiva climática mais favorável para 2027/28 tende a manter os preços internacionais sob pressão baixista, especialmente se as chuvas no Brasil se confirmarem ao longo da florada. Para o produtor brasileiro, o amortecedor cambial é relevante: enquanto o real não se apreciar de forma significativa, parte da queda em dólar tende a ser compensada na conversão para reais, sustentando a remuneração doméstica.
Impacto B2B
Torrefadoras e exportadores se beneficiam de preços internacionais mais baixos e da manutenção da isenção tarifária nos Estados Unidos, embora o produtor sinta a queda em dólar amortecida pelo câmbio — o repasse ao custo de compra da indústria tende a ser gradual, não imediato.
Impacto B2C
Sem repasse identificado ao preço de varejo do café nesta semana.
O que observar
A confirmação das chuvas ao longo da florada 2027/28 nas próximas semanas, e o resultado da rodada de negociação tarifária Brasil-EUA de 30 de setembro a 1º de outubro — a manutenção da isenção tarifária do café remove um risco relevante de perda de competitividade justamente no momento em que o mercado começa a precificar uma safra brasileira maior.
5 · Boi gordo
O que aconteceu
O indicador Cepea/Esalq/B3 do boi gordo em São Paulo fechou em 18 de setembro a R$ 352,90 por arroba, alta de 0,10% no dia. Levantamentos da semana anterior (14 de setembro) já mostravam um mercado de poucos negócios e preços estáveis em torno de R$ 345 a prazo, com a oferta de animais terminados descrita como "ajustada e suficiente" para atender às escalas de abate — de 33 praças monitoradas, 27 não registraram variação de preço. No front comercial, contudo, as exportações de carne bovina seguem em desaceleração: o volume embarcado em agosto caiu 27% frente a agosto de 2025, ainda que o acumulado de 2026 mantenha alta de 5%. As vendas à China caíram 48% em julho na comparação anual, refletindo a proximidade do esgotamento da cota chinesa: o Brasil já havia embarcado 872 mil toneladas entre janeiro e agosto, de uma cota total de 1,106 milhão de toneladas para 2026.
Como contrapartida, abriu-se uma janela nos Estados Unidos: o Brasil deve receber 193 mil toneladas de uma cota de 300 mil toneladas com isenção tarifária, liberada em parcelas mensais de 100 mil toneladas, o que deve compensar parte das perdas do mercado chinês já no terceiro trimestre. Apesar da queda de volume, o valor médio das exportações de carne se manteve firme na comparação anual, com recuo de apenas 3% em dólares frente a julho.
Por que aconteceu
A firmeza do preço doméstico, mesmo em semana de negócios mais fracos, decorre da oferta controlada de animais terminados — resultado do ciclo pecuário e da resistência dos pecuaristas em vender abaixo do preço desejado — combinada com a necessidade dos frigoríficos de manter escalas de abate. Já a desaceleração das exportações para a China é um fenômeno essencialmente de cota: como o Brasil já colocou 872 mil das 1,106 milhão de toneladas permitidas em 2026, o ritmo de embarques naturalmente perde força nos meses finais do ano, independentemente da demanda chinesa subjacente. A abertura da cota tarifária americana, por sua vez, é resultado direto da manutenção da isenção do tarifaço de Trump sobre a carne bovina brasileira.
Consequências no mercado
No curto prazo, o mercado doméstico do boi gordo deve seguir sustentado pela oferta enxuta de animais terminados, com viés de estabilidade a leve alta — a curva futura da B3 já precifica valorização da ordem de 8,7% até fevereiro de 2027, sinalizando confiança do mercado em preços mais altos adiante. A queda das exportações para a China, embora expressiva em volume, tem impacto limitado sobre o preço doméstico porque é majoritariamente um efeito de cota, não de demanda, e a cota americana parcialmente compensa o volume perdido.
Impacto B2B
Frigoríficos conseguem compensar parte da queda do volume para a China com a nova cota tarifária americana (193 mil das 300 mil toneladas), mas a diversificação para mercados como a União Europeia — cujos preços pagam prêmio de até 56% sobre a média brasileira para produtos de maior valor agregado — segue sendo o principal vetor estrutural buscado pelo setor.
Impacto B2C
Sem sinal de repasse direto ao consumidor identificado nesta semana.
O que observar
A evolução do uso da nova cota tarifária americana e o ritmo de retenção de fêmeas/abate no mercado doméstico — o preço da arroba segue mais determinado pelo ciclo de oferta interna do que pela volatilidade do comércio exterior neste momento, mas a diversificação de mercados (China, EUA e, potencialmente, União Europeia) segue sendo o principal vetor estrutural de valorização de médio prazo.
6 · Cenário macroeconômico
6.1 Câmbio
O dólar fechou a semana cotado a R$ 5,1451 em 18 de setembro (+0,11% no dia, +0,39% na semana), após oscilar entre R$ 5,14 e R$ 5,17 ao longo do período. Entre os fatores citados pelo mercado estão: a pesquisa Datafolha de segundo turno mostrando o presidente Lula (PT) com 46% das intenções de voto contra 44% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — configurando empate técnico e mantendo o noticiário eleitoral como fonte de ruído para o câmbio; a atuação do Banco Central, que realizou leilão de linha de US$ 1 bilhão com vencimento em abril de 2027 e rolou 50 mil contratos de swap cambial referentes ao vencimento de outubro; e a saída líquida de capital de US$ 5,987 bilhões do país em setembro (até o dia 11), sendo cerca de 90% pelo canal financeiro.
O real se manteve relativamente estável na semana — variação de menos de 0,4% — apesar da elevação de juros nos EUA, o que evidencia o papel amortecedor do superávit comercial recorde do agronegócio e da atuação ativa do Banco Central via leilões de linha e swaps para conter a volatilidade. Para o exportador de commodities, o nível corrente em torno de R$ 5,14–5,15 permanece historicamente favorável à receita em reais por saca ou arroba exportada; o risco a monitorar é a trajetória do diferencial de juros Brasil-EUA, que se estreitou nesta semana (Selic a 13,75% e Fed Funds a 3,75–4,00%) e tende a se estreitar ainda mais se o Fed cumprir a sinalização de nova alta até o fim do ano — um fator estruturalmente depreciacionista para o real, positivo para a competitividade-preço das exportações agrícolas, porém pressionando o custo em reais de insumos importados e de dívidas em moeda estrangeira do setor.
6.2 Taxa Selic e custo do crédito rural
Como detalhado na seção 1.1, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro, citando moderação da atividade (IBC-Br -0,22% em julho, varejo -0,8%) mas mantendo a inflação como preocupação central (IPCA projetado em 5,2% para 2026, acima da meta de 3%, com expectativas desancoradas).
Com a Selic ainda em patamar de dois dígitos elevado, o custo de oportunidade do capital permanece alto para o produtor que financia custeio e investimento fora das linhas subsidiadas do Plano Safra, e mesmo as taxas equalizadas do crédito rural tendem a repassar parte da trajetória da Selic com defasagem. O corte de 0,25 p.p. tem efeito incremental pequeno sobre o fluxo de caixa do produtor no curto prazo; o que realmente importa para a margem rural é a inclinação da curva de juros futura — e o comunicado cauteloso do Copom sugere que o ciclo de cortes deve ser lento, o que posterga o alívio mais expressivo no custo do crédito para 2027.
6.3 Comércio exterior e tarifas
Os dados de comércio exterior e o andamento da negociação tarifária Brasil-EUA reforçam um quadro de resiliência exportadora do agronegócio brasileiro, com o superávit acumulado no ano 36,9% acima do mesmo período de 2025 e a manutenção da isenção tarifária para carne bovina e café — as duas cadeias historicamente mais expostas ao mercado americano entre as commodities cobertas por esta análise.
O principal ponto de atenção para as próximas semanas é o resultado da rodada de negociação de 30 de setembro a 1º de outubro em Milwaukee. Uma eventual ampliação da lista de produtos isentos — ou, no cenário contrário, a imposição de novas tarifas sobre grãos ou derivados — teria impacto direto e imediato sobre os fluxos de exportação e, por consequência, sobre os prêmios de exportação pagos ao produtor brasileiro nos portos.
Fontes
Todos os dados, números e citações desta análise foram extraídos das fontes abaixo, consultadas entre 18 e 19 de setembro de 2026.
Cepea/Esalq e cotações
Safras e USDA/Conab
Exportações e mercado externo
- InfoMoney — Abiove reduz previsão de exportação de soja (18/09/2026)
- Forbes Agro — Embarques de soja em setembro
- Folha Agrícola — Soja: chuvas favorecem semeadura (14/09/2026)
- Souagro — Exportações de carne caem com recuo da China (09/09/2026)
- Beefpoint — Mercado do boi gordo (15/09/2026)
- Agrolink — Commodities agrícolas recuam 3% (15/09/2026)
- Canal Rural — Balança comercial (14/09/2026)
Macroeconomia — Selic, Fed e câmbio
- O Povo — Copom reduz Selic para 13,75% (16/09/2026)
- Melhor Investimento — Copom corta a Selic e sinaliza cautela
- Diário Carioca — Fed eleva juros dos EUA (16/09/2026)
- Fed Rate Calc — FOMC Meeting Schedule, setembro de 2026
- InfoMoney — Dólar hoje (16/09/2026)
- InfoMoney — Dólar fecha a R$ 5,14 (18/09/2026)
Esta análise tem caráter informativo e educacional, não constituindo recomendação de investimento ou de comercialização. Dados sujeitos a revisão pelas fontes originais.