Guia de referência

Glossário de mercado

Os termos técnicos que mais aparecem nas nossas análises semanais, explicados em linguagem simples. Clique em qualquer palavra destacada numa análise para chegar direto na explicação aqui.

O que é o CEPEA, e por que confiamos nele

O CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) é ligado à Esalq, escola de agricultura da USP. Todos os dias, pesquisadores levantam os preços praticados em cooperativas, armazéns e tradings de várias regiões do país, e calculam uma média que representa o preço físico daquela commodity — o valor que o produtor realmente recebe hoje, na entrega imediata.

É por isso que usamos o CEPEA como referência: é o indicador mais citado do setor no Brasil, usado oficialmente pela Conab, pelo Ministério da Agricultura, por bancos e por cooperativas. Não é uma estimativa de mercado financeiro — é o retrato do que está sendo negociado de verdade, no chão da fazenda e no balcão da cooperativa.

Um detalhe importante: o CEPEA fecha a conta do dia só no fim da tarde. Por isso, o preço que aparece pela manhã é sempre o fechamento do dia anterior — não é atraso do site, é como a coleta de dados funciona.

Por que existe um preço "de hoje" e um preço "de setembro"

Além do preço físico, a B3 (a bolsa brasileira) negocia contratos futuros: acordos para comprar ou vender uma commodity numa data futura, por um preço combinado agora. Esse preço reflete a expectativa do mercado financeiro — o que compradores e vendedores acham que o preço vai valer lá na frente, considerando clima, tamanho da safra, câmbio e demanda internacional.

Por isso o preço futuro quase nunca é idêntico ao físico: a diferença entre os dois (o que o mercado chama de "base" ou "basis") carrega informação. Se o futuro está bem mais alto que o físico, por exemplo, o mercado está apostando em alguma pressão de alta entre agora e o vencimento do contrato — pode ser expectativa de quebra de safra, alta do dólar, ou aumento de demanda externa.

Quem exporta ou compra grandes volumes usa esse mercado para se proteger de oscilação de preço (o que se chama de "hedge") — travando hoje o valor de uma venda ou compra que só vai acontecer daqui a alguns meses.

03 · Referência rápida
Arroba
Unidade de medida usada para negociar boi gordo no Brasil, equivalente a 15 quilos de carcaça do animal (não do animal vivo). Quando uma análise cita "R$ 340 a arroba", está falando do preço pago por cada 15 kg de carne já processada. O boi gordo é sempre cotado por arroba, nunca por saca.
B3
A bolsa de valores e de mercadorias do Brasil, sediada em São Paulo. É nela que se negociam os contratos futuros de commodities brasileiras, como o milho e o boi gordo, com entrega prevista para meses à frente.
Backwardation
Situação em que o preço de um contrato futuro com entrega mais distante é menor do que o de entrega mais próxima. Na prática, indica que o mercado espera que a escassez atual de um produto seja temporária, e não um problema permanente de oferta.
Basis (base)
A diferença entre o preço físico e o preço futuro da mesma commodity. Está diretamente ligada aos conceitos de backwardation e contango: carrega informação sobre a expectativa do mercado quanto à oferta e demanda futura de um produto.
Câmbio (dólar/real)
A cotação que informa quantos reais são necessários para comprar um dólar americano. Como boa parte das commodities agrícolas é precificada internacionalmente em dólar, um real mais fraco (dólar mais caro) tende a favorecer o exportador brasileiro, que recebe mais reais pela mesma venda em dólar.
CEPEA/Esalq
Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, ligado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP). É a principal fonte de referência de preços agrícolas físicos no Brasil — quando uma cotação de café, soja, milho ou boi gordo é citada sem outra fonte, normalmente vem daqui.
Conab
Companhia Nacional de Abastecimento, empresa pública ligada ao Ministério da Agricultura. Divulga, mensalmente, as estimativas oficiais de produção das safras agrícolas brasileiras.
Contango
O oposto do backwardation: quando o preço do contrato futuro de entrega mais distante é maior do que o de entrega próxima. Costuma refletir custo de armazenagem e expectativa de preços mais altos no futuro.
Contrato futuro
Acordo para comprar ou vender uma quantidade fixa de uma commodity numa data futura, por um preço definido hoje. É o instrumento financeiro por trás de conceitos como dólar futuro, backwardation e contango.
Cota tarifária
Quantidade de um produto que um país pode exportar para outro pagando uma tarifa reduzida ou zero. Depois de atingido esse limite, qualquer volume adicional passa a pagar uma tarifa mais alta, o que reduz a competitividade do produto excedente.
Dólar futuro
Contrato negociado na B3 que trava, hoje, o valor do dólar para uma data futura — usado por exportadores e importadores para se proteger de variações bruscas do câmbio.
El Niño / La Niña
Fenômenos climáticos causados por variações na temperatura das águas do oceano Pacífico, que alteram o regime de chuvas em boa parte do mundo, incluindo o Brasil. O El Niño costuma trazer chuva em excesso ao Sul do país e períodos mais secos ao Norte e Nordeste; a La Niña tende a inverter esse padrão.
Estoque de passagem
A quantidade de um produto que sobra no fim de um ciclo de safra e é somada à produção do ciclo seguinte. Um estoque de passagem baixo significa que há pouca "gordura" no sistema — qualquer imprevisto na safra seguinte tende a pressionar os preços com mais força.
EUDR (Regulamento Europeu de Desmatamento)
Norma da União Europeia que exige comprovação, com rastreabilidade documental, de que produtos como café, soja e carne bovina vendidos ao bloco europeu não vêm de áreas desmatadas recentemente. Passa a valer para grandes empresas a partir de 30 de dezembro de 2026.
Fechamento
O último preço negociado antes do encerramento do pregão do dia — o resultado final daquele dia de negociação para uma determinada commodity ou contrato.
Hedge
Estratégia usada para travar um preço futuro e se proteger de oscilações de mercado. É uma prática comum entre exportadores e compradores de grandes volumes, que assim reduzem a incerteza sobre o preço de uma operação que só vai se concretizar meses à frente.
Indicador ESALQ
Nome usado para os preços físicos de referência calculados pelo CEPEA/Esalq para diferentes commodities e praças (por exemplo, "Indicador ESALQ/Paranaguá" para a soja).
Libra-peso
Unidade de peso usada nos Estados Unidos, equivalente a cerca de 453,6 gramas. O café é negociado internacionalmente em dólares por libra-peso na Bolsa de Nova York.
One Health
Política da União Europeia que trata a saúde humana, animal e ambiental como interligadas, usada como base para exigências sanitárias sobre produtos importados, como o controle de antimicrobianos em animais.
PTAX
Taxa de câmbio oficial calculada e divulgada pelo Banco Central do Brasil, usada como referência em contratos financeiros e liquidações que envolvem conversão entre reais e dólares. É calculada uma vez por dia, a partir da média das operações de câmbio realizadas no mercado.
Relação estoque/consumo
Percentual que compara quanto de um produto está estocado em relação ao quanto o mundo consome dele por ano. Quanto menor essa relação, mais sensível o preço fica a qualquer imprevisto de oferta.
Saca
Unidade de medida usada para negociar grãos no Brasil. Para café, soja e milho, a saca padrão equivale a 60 quilos; para o açúcar cristal, a referência usada no mercado é a saca de 50 quilos.
Safra / Safrinha
"Safra" é o ciclo principal de plantio e colheita de uma cultura em determinado ano agrícola. "Safrinha" é a segunda safra, plantada logo após a colheita da primeira no mesmo ano — no Brasil, é especialmente importante para o milho.
Selic
Taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Influencia o custo do crédito rural e a atratividade de reter ou vender a produção agrícola.
Vazio sanitário
Período obrigatório em que fica proibido manter, no campo, plantas de determinada cultura (como a soja) em certas regiões, para reduzir a proliferação de pragas e doenças de uma safra para a outra. Só depois de encerrado esse período é liberado o plantio da safra seguinte.
WASDE (World Agricultural Supply and Demand Estimates)
Relatório mensal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) com estimativas de oferta e demanda mundial de grãos e outras commodities. Por cobrir também a produção americana e mundial, é uma das publicações mais acompanhadas pelo mercado agrícola global, inclusive no Brasil.